Produtividade da soja
17.05.2009
O Brasil deve produzir este ano 57 milhões de toneladas de soja. Agora, imagine que seja possível aumentar isso, chegar a 86 milhões de toneladas, sem ampliar a área das lavouras já abertas. Essa é a proposta de um Comitê que será lançado esta semana. E a idéia é maior do que se imagina: garantir a alimentação do planeta, de forma sustentável.
Uma discussão mundial e a perspectiva de um futuro preocupante para os países em desenvolvimento. Só na China, 450 milhões de pessoas foram tiradas da miséria em 25 anos.
Mais gente comendo e a necessidade de aumentar a oferta de alimentos. Principalmente soja, indiretamente uma das bases da nossa alimentação, já que ela é matéria prima da ração animal. “Os pobres do mundo começaram a comer, o que nós precisamos é produzir mais”, afirmou o Presidente Lula.
“Nós podemos aumentar a oferta de alimentos aumentando relativamente pouco a área cultivada”, afirma o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. “Expandir área é problemático para o produtor, porque aumenta o custo dele; é problemático para o governo, porque aumenta a demanda de infra-estrutura, estradas, hidrodovias; é problemático do ponto de vista ambiental, da imagem do país no exterior”, explica Décio Gazzoni, Assessor da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.
Ninguém discute, o Brasil é um dos países com mais possibilidade de aumentar a produção de soja e atender a crescente demanda mundial, e se abrir novas áreas não é interessante para ninguém, o jeito é concentrar esforços e ganhar em produtividade.
Pensando nisso, um grupo de profissionais de alto nível, ligado à cultura da soja, criou uma organização não governamental para tratar do assunto. O Cesb, Comitê Estratégico Soja Brasil, reúne gente da indústria, de instituições de pesquisa e do governo. Como Décio Gazzoni, Assessor da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.
“A produtividade média do Brasil tem ficado em torno de 2.850 quilos. A nossa proposta é atingir quatro mil quilos por hectare” E como fazer isso, de que maneira vocês pretendem trabalhar para atingir essa meta? “São uma série de ações, mas o foco central é o seguinte: o produtor realmente precisa usar boas práticas agrícolas. Ele vai ter que usar a melhor tecnologia, da melhor maneira, de forma sustentável”. Quer dizer, não existe nenhum segredo na proposta de vocês, são práticas que já existem, tecnologias já existentes? “Todas elas já existentes, de alguma maneira adotadas, o que nós queremos fazer é justamente reforçar a adoção de um pacote completo, de um sistema completo”, explica Décio Gazzoni.
Mas, para alcançar os quatro mil quilos por hectare é preciso planejar e trabalhar duro. Em São Miguel do Passa Quatro, Goiás, na fazenda do Sr. Aldino Rosso. A propriedade tem cinco mil hectares. Ele tem por filosofia fazer tudo o que pode para alcançar uma boa produtividade. “O aumento de produtividade faz com que a possibilidade de margem do agricultor volte a aparecer”, afirma Sr. Aldino.
Para produzir soja e sementes, conta com a ajuda da família. O filho Robson Rosso é agrônomo e está sempre de olho no futuro. Como está o planejamento de vocês para a próxima safra, 2009-2010? “No momento nós já estamos com todos os insumos da próxima safra, já adquiridos. Esse planejamento antecipado nos possibilita melhorar o cronograma da fazenda, adquirir insumos mais baratos, facilitando assim diminuir o custo e tentar aumentar a margem de lucro”, explica Robson.
Selecionar as melhores sementes e cultivares para a lavoura da família é tarefa da outra filha do Sr. Aldino, a também agrônoma, Andréia Rosso. “O produtor ele tem que fazer um planejamento das áreas as quais ele vai plantar, em cima disso ele vai optar entre as cultivares oferecidas no mercado. Essa cultivar tem que apresentar adaptabilidade ao terreno, média, alta ou baixa fertilidade; o ciclo do qual ele deseja adquirir, precoce, média ou tardio; e no terceiro ponto a resistência ou tolerância a doenças”.
Sr. Aldino não descuida da fertilidade do solo, amostras são analisadas freqüentemente. Depois, entram em ação as técnicas da chamada agricultura de precisão. A área é mapeada de acordo com as necessidades do solo. As informações vão para um computador e um GPS direciona a máquina para as partes da propriedade que devem receber mais ou menos adubo ou corretivo. Resultado: solo fértil e economia.
“Isso permite que em alguns lugares nós não colocamos nada de calcário e em outros até três toneladas. No final, a experiência que nós temos é que nós passamos a usar menos calcário que se fizesse uma média geral”, afirma Sr. Aldino.
Sr. Aldino também usa uma série de outras técnicas que o Globo Rural já mostrou. Faz plantio direto no solo coberto com a palha da última colheita. Capricha no controle de pragas e doenças. Planta cultivares resistentes, aplica corretamente os defensivos. Usa o pano de batida para acompanhar a infestação de pragas na lavoura.
O agricultor cede ainda 40 hectares de sua propriedade para de pesquisa. Atualmente empresas privadas, técnicos da Embrapa soja e do CTPA, O centro Tecnológico de Pesquisas Agropecuárias, trabalham na área. “Nos temos hoje a pesquisa do mofo branco, que é uma doença que nesses últimos três anos vem aumentando de importância e que aqui fica uma das bases nossas no Estado. Estamos procurando uma resistência, uma tolerância com a questão da ferrugem”, explica o Representante do Centro Tecnológico para Pesquisas Agropecuárias, José Nunes Júnior.
Para não comprometer o rendimento, atenção também durante a colheita. Uma máquina mal regulada provoca desperdício, parte dos grãos vai ficando pelo chão. “Uma colheitadeira bem regulada, praticamente não termos perdas na colheita, admitindo o máximo de saca por hectare. Se não efetuarmos a regulagem, nós podemos ter perdas de três a quatro sacas por hectare. Se pensarmos que a margem de lucro é mínima hoje na agricultura brasileira, da soja, então um, dois ou três sacos a menos, que são perdidos é de alto valor para o produtor”, diz Sr. Aldino.
E ainda não acabou, evitar perdas no transporte e armazenamento das sacas de 60 quilos, também é regra por aqui. Dessa forma a produtividade média da lavoura do Sr. Aldino passou de 2.700 para 3.600 quilos por hectare.
Fazer uso de todo pacote tecnológico é fundamental para quem quer aumentar a produtividade, mas tecnologia sem uma boa gestão pode gerar custos excessivos e prejudicar o agricultor. Por isso, uma administração rigorosa também tem que fazer parte dos planos de quem quer mais produtividade e renda.
“Como qualquer empresa você vai buscar a sua rentabilidade, vai sempre se casando, quanto nós estamos gastando, o que está trazendo para nós o retorno”, afirma o doutor Henrique de Moraes, que é agrônomo e Coordenador técnico do Grupo de Apoio a Pesquisa do Sudoeste Goiano: o Gapes, uma associação formada por 30 agricultores da região de Rio Verde que se tornou referência no Brasil
Criado originalmente para desenvolver pesquisas dentro das propriedades dos associados, o grupo hoje já trabalha também com compra e venda conjuntas. O segredo do sucesso? “A fórmula que eu acredito que os associados do Gapes conseguiram foi principalmente a gestão de um banco de dados, um grupo técnico, avalia o que foi de resultado, aquilo que se deu de melhor, e aquilo que tem que ser melhor avaliado para os anos seguintes, ou aquilo que o grupo já pensa até mesmo em descartar”, afirma Henrique.
Pertinho de Rio Verde, no município de Montividiu, Sr. Oscar Durigan, um dos associados do Gapes, planta soja em 1.500 hectares. Quanto o senhor conseguiu de incremento dentro de sua produtividade, aqui na fazenda, depois do advento do Gapes? “A cada ano estamos conseguindo aí um saco, um saco e meio de aumento. Isso já não e fácil pensando em área, mas graças a Deus é o que nós estamos conseguindo”.
Hoje o senhor produz quantos sacos por hectare? “Esse ano se tudo correr bem, pelo que vai indo, acho que nós fechamos aí nos seus 59 sacos por hectare”, completa. Ainda falta muito para o Brasil alcançar a meta de quatro mil quilos por hectare, proposta pelo Comitê. Mas por aqui ninguém duvida que isso seja possível.
O senhor acredita em uma produtividade média de quatro mil quilos, 66 sacos? “Sim, com certeza. Já dentro das nossas áreas de pesquisa, temos materiais que já nos mostra isso. Utilizando sementes padronizadas, de boa qualidade, com adubação adequada é possível chegar aos quatro mil quilos. Em parte das áreas, em talhões nós já conseguimos produtividade nesse nível, e nosso buscamos atingimos essa média, o que não é fácil em função de uma séria de circunstancias que acompanham a agricultura desde precipitações, condições climáticas”, afirma Sr. Aldino
O Comitê Estratégico Soja – Brasil será lançado nesta quarta-feira, dia 20 de maio, em Goiânia, durante o congresso da soja, com um concurso de reconhecimento da lavoura de soja mais produtiva do Brasil.
Quem quiser se informar sobre o trabalho do Comitê pode enviar um e-mail para cesb@ces-brasil.org. Você também pode escrever para o seguinte endereço.
Comitê Estratégico Soja – Brasil Caixa Postal: 1534 – Uberlândia – MG CEP: 38408-975
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